Anseio contrariado
pedra em engaste
Não há vivente que jamais se queixe,
que invés das carências, tenha sobra;
pedir vasta luz e receber só um feixe,
e com essa parcimônia fazer sua obra;
ter rogado ao fado por um lindo peixe,
recebido contrariado, uma rude cobra;
enfim, tais decepções testam, o sentir,
afinal, viçam contrariando todo anseio;
quiçá obram para nossa têmpera medir,
saber o que podemos, antes do recreio;
se com as forças encontradas se pode ir,
ou, tempo de ser ditoso, ainda não veio;
resta encarar firme, o que, pra hoje tem,
cada abacaxi ou pepino seja descascado;
pois, mesmo ruim a sina inda há um bem,
que permite a gente lançar mão ao arado,
e, ventura esperada é quimera, não vem,
com o que veio, traçar um dia, resignado;
a vida é mais dura quando a fibra é parca,
ao brio do lutador, que a dureza se afaste,
e a, ventura inesperada às vezes embarca,
quiçá apenas para acentuar um contraste,
e o anseio chutado ressurge sem a marca,
quando encaixam, enfim, pedra e engaste…
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