O camelo
Águas da inspiração
A poesia que resta num domingo que faltou,
sobrou sem graça, como resta xepa da feira;
afinal, o dia deu o que tinha, fez o seu show
e ninguém pediu bis, dada, sua pasmaceira;
se a vida colocar a morte escura, na ribalta,
até a morte viverá, pelo assédio do engano;
essa esquisita sobra é a denúncia que falta,
tecido pra confecção, ou, a manga e o pano;
poetar, eventualmente, é sisudo, e trágico,
por lapsos tristes em vez de beleza, lirismo;
vertente é o complexo sistema, autofágico,
que pela falta devora ao próprio organismo;
bebe lapsos, com arranjo em versos retribui,
como que, haurindo calor dum ambiente frio;
pois, à exata proporção que o alento diminui,
robustece como a beber de um cântaro vazio…
esse camelo que suporta o tão vasto deserto,
é adoçado pelas provas mui duras que encara;
a vida entorta as linhas mas ele caminha certo,
forjando imaginário oásis, no seu árido Saara…
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