Os sábios aos próprios olhos
Narcisos intelectuais
“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, espaçoso o caminho que conduz à perdição; muitos são os que entram por ela;” Mat 7;13
Quão estreita é a porta da salvação? Para uns mais, para outros, menos, embora seja a mesma.
A proporção depende de quanto nossas almas se esbaldaram nas amplidões viciosas.
Quanto mais hábitos ruins, alguém precisar abandonar, mais estreita lhe parecerá. Embora, os vícios grosseiros pareçam os mais difíceis, bebedices, glutonarias, drogas, promiscuidade, esses são os mais fáceis. Digo, seus próprios reféns estão convencidos dos males que eles fazem; devidamente ajudados, empreenderão esforços para se ver livres.
Os vícios mais resilientes são os “intelectuais”; conseguem a proeza de se camuflar de virtudes, nas almas em que parasitam. Acaso não foram esses, que “patrocinaram” a crucificação do Senhor? Embora com um verniz religioso, naquele caso, foram os mesmos que, hoje, “fomentam” as “razões” dos incrédulos.
A presunção de intelectualidade superior, a “certeza” lógica dos postulados filosóficos, o orgulho de não ser “bitolado”, são amarras muito difíceis; pois, a vítima dessas coisas, invés de pelejar contra elas para se libertar, peleja por elas, recrudescendo as próprias algemas.
Embora o “Coliseu” desse embate seja moral, mais que intelectual, os viciados em insubmissão fazem seus contorcionismos escrupulosos, para que a coisa pareça embate legítimo de ideias plausíveis.
Diferente da verdadeira filosofia, que faz as devidas concessões a pensamentos alheios, em demanda pela verdade, esses, ridicularizam tudo o que se lhes oponha, não porque seja falso; antes, porque lhes é desconfortável.
Em si mesmos têm o testemunho, que, sua labuta não é em busca de Sophia, antes, da preservação das suas predileções, malgrado, incongruentes.
Sócrates dizia: “Liberte-me da minha ignorância, e ter-te-ei na conta de meu maior benfeitor.” Deixando patente, seu apreço pela verdade, mais que, pela reputação de sábio, ainda que, a tivesse.
Nas Palavras do mais sábio entre os homens, Salomão, o sujeito vazio da verdade e cheio de si, que não faz concessão nenhuma, é o “sábio aos próprios olhos.”
Uma espécie de Narciso intelectual, ante o espelho da própria vaidade. Quando valorou a esse, o resultado não foi encorajador. “Vês um homem que é sábio aos próprios olhos? Maior esperança há para o tolo que para ele.” Prov 26;12
Há uma diferença fundamental entre lidar com abelhas e com vespas; embora, o risco semelhante de sermos ferroados. No caso das abelhas existe o contraponto do mel; no das vespas, apenas o ferrão.
Assim, a diferença entre debater com gente honesta, que, expõe suas dúvidas e divergências, buscando conhecer o alheio pensar, disposto a quiçá, refazer o próprio, uma vez convencido. A “dor” de lidar com suas objeções é compensada pelo “mel” da clareza espiritual que resultará, beneficiando a ambos.
Quando se trata de um “sábio aos próprios olhos” a eloquência de um Cícero será pífia, a ousadia de um Paulo se mostrará covarde, a sabedoria de Salomão será reputada estulta. A vespa nada pode além de ferroar, é sua natureza.
Por essas e outras, Paulo desaconselhou que se gastasse latim com hereges; “Ao homem faccioso, depois da primeira e segunda admoestação, evita-o, sabendo que esse tal está pervertido, e vive pecando; já por si mesmo está condenado.” Tt 3;10 e 11
Longe de nós esposar que sabemos muito. Nosso saber está, para a Vera Sabedoria, com um grão de areia para o Saara.
Uma vez confrontados com argumentos plausíveis, sobretudo, alinhados à Palavra de Deus, estamos prontos a mudar.
Entretanto, quem acha que a Bíblia é um compêndio de mitos, e Deus uma farsa, siga airoso no alto das suas convicções. Apenas, não espere de nós que saibamos a diferença entre abelhas e vespas.
Assim, quando paramos de respondê-los, e os deixamos com a “razão”, não é porque venceram nossas ideias, nossos argumentos. Antes, porque venceram nossa esperança, decepcionaram nossas expectativas de termos encontrado partidários da verdade, exercitando-se na academia da honestidade intelectual.
A Sabedoria que não tiver a submissão a Deus, como “pedra de toque”, é d’outra origem, como ensina Tiago: “Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.” Tg 3;15
Paulo também fez a distinção necessária; “Na verdade, entre os perfeitos falamos sabedoria, não, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que estão sendo reduzidos a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, que esteve oculta, a qual Deus preordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo compreendeu; porque se a tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória.” I Cor 2;6 a 8
Enfim, a porta estreita se mostra estreita demais, para dar passagem aos que acham que sabem mais do que Deus.
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